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domingo, 2 de novembro de 2014

Artigo de FHC: Diálogo ou novas imposturas?

Por Fernando Henrique Cardoso.

Em uma democracia não cabe às oposições, como ao povo em geral, senão aceitar o resultado das urnas. Mas nem por isso devemos calar sobre o como se conseguiu vencer, nem sobre o porque se perdeu. Os resultados eleitorais mostram que aprovação ao atual governo apenas roçou um pouco acima da metade dos votos. Ainda que a vitória se desse por 80 ou 90% deles, embora o respeito à decisão devesse ser idêntico ao que se tem hoje com a escassa maioria obtida pelo lulopetismo, nem por isso os críticos deveriam calar-se.

É bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos. Para começar, não se pode aceitar passivamente que a “desconstrução” do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática. Foi o que aconteceu, primeiro com Marina Silva, em seguida com Aécio Neves. O vale tudo na politica não é compatível com a legitimidade democrática do voto. Marina, de lutadora popular e mulher de visão e princípios, foi transformada em porta-bandeira do capital financeiro, o que não é somente falso, mas inescrupuloso. Aécio, que milita há trinta anos na política, governou Minas duas vezes com excelente aprovação popular, presidiu a Câmara e é senador, foi reduzido a playboy, farrista contumaz e “candidato dos ricos”.

Até eu, que nem candidato era, fui sistematicamente atacado pelo PT, como se tivesse “quebrado” o Brasil três vezes (quando como ministro da Fazenda ajudei o país a sair da moratória), como se tivesse deixado a presidência com a economia corroída pela inflação (como se não fossemos eu e minha equipe os autores do Plano Real que a reduziu de 900% ao ano para um dígito), como se os 12% de inflação em2002 fossem responsabilidade de meu governo (quando se deveram ao temor de eventuais desmandos de Lula e do PT).

Não me refiro à língua solta de Lula, que diz o que quer quando lhe convém, mas ao fato de a própria Presidenta e sua campanha terem endossado que o PSDB arruinou o Banco do Brasil e a Caixa, quando os repôs em sadias condições de funcionamento. E assim por diante, num rosário de mentiras e distorções, insinuando terem sido postos em baixo do tapete vários “escândalos”, como o “da pasta rosa” ou o “do SIVAM”, ou “da compra de votos” da emenda da reeleição etc., factóides construídos com matéria falsa, levantada pelo PT, submetida a CPIs, investigações várias e julgamentos que deram em nada por falta de veracidade nas acusações.

Mas isso não é o mais grave. Mais grave ainda é ver a reeleita colocando-se como campeã da moralidade pública. Entretanto, não respondeu à pergunta de Aécio Neves sobre se era ou não solidária com seus companheiros que estão presos na Papuda. Calou ainda diante da afirmação feita no processo sobre o Petrolão de que o tesoureiro do PT, senhor Vaccari, era quem recolhia propinas para seu partido. Havendo suspeitas, vá lá que não se condene antes do julgamento, mas até prova do contrário deve-se afastar o indiciado, como fez Itamar Franco com um ministro e eu fiz com auxiliares, inocentados depois, no caso SIVAM. Então por que manter o tesoureiro do PT no Conselho de Itaipu?

Pior. A propaganda incentivada pela liderança maior do PT inventou uma batalha dos “pobres contra os ricos”. Eu não sabia que metade do eleitorado brasileiro, que votou em Aécio, é composta por ricos… É difícil acreditar na boa fé do argumento quando se sabe que 70% dos eleitores do candidato do PSDB, segundo o Datafolha, compunham-se de pessoas que ganham até três salários mínimos. A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores. Isso não é política de esquerda nem de direita, é má fé política para a manutenção do poder a qualquer custo. Igual embuste foi a insinuação de que a oposição é “contra os nordestinos”, como se não houvesse nordestinos lideres do PSDB, assim como eleitores do partido no Nordeste.

Também houve erros da oposição. Quem está na oposição precisa bradar suas razões e persistir na convicção, apontar os defeitos do adversário até que o eleitorado aceite sua visão. Para isso precisa organizar-se melhor e enraizar-se nos movimentos da sociedade. Felizmente desta vez Aécio Neves foi firme na defesa de seus pontos de vista e, sem perder a compostura, retrucou os adversários à altura, firmando-se como um verdadeiro líder.

Diante do apelo ao diálogo da candidata eleita devemos responder com desconfiança: primeiro mostre que não será leniente com a corrupção. Deixe que os mais poderosos e próximos (ministros, aliados ou grandes líderes) respondam pelas acusações. Que se os julgue, antes de condenar, mas que não se obstruam os procedimentos investigatórios e legais (Lula tentou postergar a decisão do STF sobre o mensalão o quanto pode). Que primeiro a reeleita se comprometa com o tipo de reforma política que deseja e esclareça melhor o sentido da “consulta popular” a que se refere (plebiscito ou referendo?). Que se debata, sim, na sociedade civil e no Congresso, mas que se explicite o que ela entende por reforma política. Do mesmo modo, que tome as medidas econômicas para vermos em que rumo irá o seu governo.

Só se pode confiar em quem demonstra com fatos a sinceridade de seus propósitos. Depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação. Só o tempo poderá restabelecer a confiança, se houver mudança real de comportamento. A confiança é como um vaso de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Aécio Neves Está no Segundo Turno


Aécio Neves: “O sentimento é de mudança”

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O sentimento de mudança que o povo brasileiro deseja para o país foi o grande vitorioso desse primeiro turno das eleições presidenciais. A avaliação foi feita pelo candidato à Presidência da República pela Coligação Muda Brasil, Aécio Neves, em seu primeiro pronunciamento após a divulgação do resultado da votação que o levou à segunda fase da corrida eleitoral. Ao falar do resultado das urnas na noite deste domingo (05/10), em Belo Horizonte (MG), ele afirmou que o triunfo de sua candidatura significa que parte da travessia que tem pela frente já foi vencida e pediu que todos a se mantenham unidos para o restante do percurso.

“A minha primeira constatação é que este sentimento de mudança amplamente presente no Brasil foi vitorioso no primeiro turno. Os candidatos de oposição somados foram vitoriosos, tiveram a maioria dos votos. E é isso que nós temos que buscar agora no segundo turno. Eu me sinto extremamente honrado em ser o representante desse sentimento nessas três semanas que nos separam da eleição”, ressaltou o candidato.

Após falar à imprensa no comitê da campanha no centro de Belo Horizonte, Aécio se dirigiu aos eleitores que o aguardavam do lado de fora do prédio e agradeceu o empenho de todos. Acabou carregado nos ombros pelos aliados e saudado com as palavras “Aécio presidente”.

Aécio ressaltou sua confiança na vitória em 26 de outubro, derrotando o discurso de aliados da presidente petista Dilma Rousseff que falavam em vitória dela no primeiro turno. “O que nós ouvimos ao longo desses últimos meses foi a candidata oficial e seus assessores achando que venciam essas eleições no primeiro turno. Quem venceu as eleições no primeiro turno foi o povo brasileiro, foi o sentimento de mudança que hoje se alastra por todo o país”, reiterou.

Ensinamento

Aécio fez questão de lembrar uma frase do seu avô, Tancredo Neves, há 30 anos, quando iniciou a caminhada que o levou à Presidência e pôs fim à ditadura. “Talvez seja essa frase síntese que eu gostaria de dizer a todos os brasileiros nesse instante: ‘Nós estamos apenas na metade da travessia, portanto, não vamos nos dispersar’. Vamos já a partir de amanhã intensificar as nossas ações”, afirmou.

O candidato também fez uma homenagem ao amigo Eduardo Campos, que morreu em um acidente aéreo em 13 de agosto quando fazia sua campanha presidencial pelo PSB. “A ele [Eduardo Campos], aos seus ideais e aos seus sonhos também, a minha reverência. E nós saberemos transformá-los em realidade. Portanto é hora de unirmos as forças, a minha candidatura não é mais a candidatura de um partido político ou de um conjunto de alianças. É um sentimento mais puro de todos os brasileiros que ainda têm capacidade de se indignar, mas principalmente a capacidade de sonhar”, afirmou ele.

Aécio agradeceu aos aliados da coligação e à família. “Quero aqui, ao lado de tantos companheiros, da minha família e da minha esposa, Letícia, agradecê-la pela paciência ao longo desse período e à minha ausência em casa durante todo este tempo. Foi uma tentativa de me fazer presente na vida de milhões e milhões de brasileiros, buscando dar a eles um caminho melhor na qualidade da saúde, da educação, da segurança pública”, ressaltou.

O candidato pediu aos aliados que mantenham a mobilização da campanha. “Faço aqui uma convocação a todos os nossos companheiros e companheiras de todas as partes do país, inclusive aqueles que tiveram vitória em primeiro turno, que não desmobilizem as suas estruturas de campanha, porque a campanha não terminou ainda. Repito, estamos na metade da travessia. Vamos concluí-la com a mesma determinação, a mesma coragem e, por que não, com a mesma leveza com que chegamos até aqui”, afirmou ele.

Fonte: PSDB.org.br

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Tucanos reunidos em Belém defendem maior generosidade do governo federal com as diferentes regiões do Brasil

Aécio Neves ao lado de Simão Jatene e Zenaldo Coutinho.
No Encontro Regional da Amazônia Oriental, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), ressaltou, nesta quinta-feira (05/12), que os tucanos tratam e respeitam o Brasil de forma justa e sem discriminação.

A reação dele foi uma resposta aos apelos feitos por lideranças de que a região tem isso desprezada pelo governo federal. Para um público de cerca de três mil pessoas, Aécio destacou que as mudanças, que o Brasil deseja, devem começar com a inauguração de um novo ciclo.

“O Brasil merece um governo mais justo e eficiente”, afirmou Aécio. “Política é para quem tem coragem, espírito público e dignidade. Venho de uma história de homens públicos. Nós temos a responsabilidade de apresentarmos uma alternativa a um modelo que fracassou”, afirmou em discurso.

O presidente do PSDB destacou que há exemplos dentro do próprio partido que servem como referência para uma nova etapa política para o país. “Os brasileiros precisam readquirir a confiança nos seus governantes. Se vocês estão descrentes na política, deem um Google e olhem o que está acontecendo no Pará”, disse ele.

Desde cedo, o auditório do Hangar já estava lotado esperando
pelo Presidente do PSDB, Aécio Neves.
Aécio lembrou que os tucanos dispõem de aliados especiais. “Temos aliados extraordinários. O Brasil quer de nós a postura que sempre tivemos de respeito ao dinheiro público. O nosso desafio é fazer renascer, do fundo da alma, a esperança”, ressaltou.

Políticas públicas
O senador afirmou que as políticas públicas a serem propostas ao país pelo PSDB serão preparadas com o apoio e a ajuda da população. “As políticas não devem ser formuladas em gabinetes fechados em Brasília. Quem vai desenvolver essa região são vocês”, disse.

Respondendo aos apelos dos paraenses que se queixaram de discriminação por parte do poder central, Aécio disse que falta generosidade ao governo federal para com os estados e municípios brasileiros.

“O Brasil vai ser tratado de forma justa”, afirmou. “Queremos fazer uma convocação definitiva da luta com decência e dignidade”, disse.

Novo código mineral
Ao lado do governador do Pará, Simão Jatene, de deputados, vereadores e lideranças como prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, e os senadores Flexa Ribeiro e Mário Couto, o presidente do PSDB criticou a decisão do governo federal de adiar para o ano que vem a votação do novo código mineral. Reivindicação histórica de estados e municípios que sofrem exploração de recursos naturais, o novo código estabelece mudanças nas leis e no cálculo dos royalties minerais.
“Há muito anos, temos lutado por um novo marco regulatório do setor mineral. Infelizmente o governo do PT vem adiando isso sucessivamente. Apenas agora, há pouco tempo, enviou uma proposta ao Congresso e voltou a adiar a votação dessa proposta. Infelizmente, mais uma vez, a maioria governista já parece que manda para o ano que vem. Já há um novo período de perdas para os nossos estados. Enquanto os royalties de petróleo beneficiaram estados e municípios produtores de petróleo no ano passado R$ 35 bilhões no ano passado, os royalties minerais distribuíram apenas R$ 1,8 bilhões, sendo que apenas 500 e poucos milhões vieram para o Estado do Pará. Isso é injusto, isso é inaceitável. E essa é uma questão que, para o PSDB, é crucial”, afirmou.
(Fonte: psdb.org.br)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Campos se une a rivais do PT em 20 Estados

A saída do PSB do governo Dilma Rousseff acentuou a tendência de aproximação do partido de Eduardo Campos com a oposição, notadamente com o PSDB, e seu afastamento do PT nos Estados.

A sigla do governador de Pernambuco começa a abandonar alianças históricas com os petistas e agora busca opções para seu projeto nacional. O PSB projeta que pode estar ao lado do PT em apenas três Estados, e já articula coligações rivais em 20.

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Embora os petistas mantenham aberta a possibilidade de reaproximação com Campos, a estratégia mudará caso sua candidatura presidencial se torne irreversível.

Dirigentes do PT disseram à Folha, em caráter reservado, que a orientação aos diretórios estaduais será descartar alianças com o PSB.
Na prática, os petistas querem evitar que o partido apoie aliados de Campos nos Estados para reduzir a dimensão dos palanques regionais montados para o presidenciável do PSB. Com essa estratégia, o PT tentará isolar o governador pernambucano.

O partido está próximo do PSDB em Estados de grande eleitorado, como São Paulo e Minas Gerais. No Rio Grande do Sul, praça também estratégica, rompeu com o governo do petista Tarso Genro e pode trocar a aliança histórica com o PT pelo apoio à senadora Ana Amélia, do PP.

O realinhamento dos pessebistas nos Estados inclui até mesmo ícones da oposição ao PT, como a família Bornhausen. No auge do escândalo do mensalão, o então senador Jorge Bornhausen previu que o caso serviria para banir a "raça petista" da política.

Seu filho, o secretário de Desenvolvimento de Santa Catarina, Paulo Bornhausen, deixou o PSD e recebeu a presidência do PSB local. "Se Eduardo fura a hegemonia petista no Nordeste e vira alternativa viável no Sul ele passa a ser um candidato competitivo. Aqui, teremos um palanque fortíssimo para ele", diz Paulo Bornhausen.

Editoria de Arte/Folhapress

Em Minas, base eleitoral do tucano Aécio Neves, Campos fez intervenção para tirar do comando o lulista Walfrido dos Mares Guia.
Em seu lugar assumiu o deputado Júlio Delgado, rompido com o PT desde que foi relator, no Conselho de Ética da Câmara, do processo que levou à cassação do mandato do ex-ministro José Dirceu, no mensalão.

PSDB e PSB estudam uma candidatura comum em Minas, e também podem repetir a dobradinha em Pernambuco, reduto de Campos.
Também é considerada certa aliança entre as siglas em São Paulo, onde o PSB almeja indicar o vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB).

A aliados, Campos afirma que a estratégia do PT de estrangular a construção de seus palanques regionais o empurra cada vez mais para o campo da oposição.

Os dois principais problemas que o PSB precisa equacionar estão no Rio de Janeiro e no Ceará, Estados em que Campos teve de intervir para conter dissidências pró-Dilma. No Rio estuda lançar o deputado Romário ao Senado. A aliança ao governo poderia até mesmo ser com o petista Lindbergh Farias.

No Espírito Santo, o governador Renato Casagrande (PSB) conta com o apoio do PT e seus quase 2min50s na propaganda de TV. A direção nacional petista, contudo, planeja vetar a aliança para fragilizar a base de Campos no Estado.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Artigo de José Serra: Crescimento além do discurso

Duas das principais molas que impulsionaram a economia brasileira nos últimos anos têm perdido sua elasticidade: a demanda internacional por matérias-primas agrominerais e o crédito ao consumo. A primeira sofre os efeitos da contração do crescimento mundial, que se prolongará por alguns anos. Não necessariamente haverá um colapso dos preços das commodities brasileiras, mas as receitas de exportações e os investimentos nessa área perderão velocidade. Quanto ao crédito ao consumo, basta mencionar que 90% das famílias brasileiras revelaram não ter disposição para endividamento adicional. Elas gastam, atualmente, 30% de sua renda em juros e amortizações da dívida já assumida, proporção superior à das famílias norte-americanas. Assim, as tentativas de estímulo ao consumo via crédito não terão impacto forte nem duradouro.
Nesse contexto, não é de estranhar que a economia esteja se retraindo. De novo, nenhum colapso, mas um declínio da taxa de crescimento a cerca da metade do nível obtido no governo passado. De fato, é o modelo - chamemos assim - lulista de crescimento que perdeu o vigor.
Quais foram as principais peças desse modelo? Em resumo:
1) crescimento médio razoável, puxado pelo consumo, com baixos investimentos, aumento rápido das importações e preço ascendente das commodities exportadas;

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Artigo de José Serra: "O mal essencial"

José Serra
Dias atrás a presidente Dilma Rousseff aceitou a demissão do sexto ministro acusado de corrupção, irregularidades administrativas, malfeitos, o nome que se queira dar. A terminologia é de menos, importantes são os fatos. O primeiro ano de governo nem acabou e um em cada seis ministros já caiu em consequência de acusações relacionadas ao mau uso do dinheiro público. Deve ser um recorde mundial.

A primeira constatação é a do comprometimento do governo anterior, pois quase todos os demitidos sob suspeita saíram da cota dos herdados. Nesse sentido, é razoável considerar que a própria presidente foi fraca e aceitou do mentor um pacote estragado, por não ter força para resistir à pressão continuísta. Num esforço de leitura benigna, ela estaria agora fazendo a “faxina” na casa que herdou.

Os fatos, no entanto, são soberanos. A presidente não pode alegar surpresa diante do pacote recebido, pois ela própria compunha o núcleo do governo que sucedeu. Foi ministra durante todo o tempo, boa parte dele na posição estratégica de chefe da Casa Civil. Na prática, governou o país quando o então presidente passou a cuidar exclusivamente da sucessão. Não há como, portanto, alegar desconhecimento ou surpresa. Ela era parte importante do jogo.

Há por certo a versão fantasiosa de que os caídos em desgraça são vítimas de tramoias da imprensa. É o autoritarismo seminal do PT em ação. Para a presidente, essa versão só é boa na aparência. Será ela tão fraca que não saiba distinguir fato de conspiração? Caso as suspeitas se confirmem, e a própria Controladoria Geral da União se mostra abismada em certos casos, duas hipóteses se abrem, ambas negativas: ou Dilma ignorava tudo mesmo, evidenciando alheamento da realidade, o sabia das coisas, mas se mostrava disposta a conviver com o triste cenário para manter o apoio dos partidos que a levaram ao Palácio do Planalto.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Aécio percorre o país para apresentar propostas por um Brasil melhor

Brasília - O senador Aécio Neves (MG) percorrerá o Brasil para mobilizar a militância do PSDB, resgatar algumas bandeiras do partido e apresentar um novo modelo de gestão para o Brasil.
A primeira parada, hoje, será no Rio Grande do Sul. No estado, ele participa de reuniões políticas e palestras. Nesses eventos, ele pretende escutar opiniões que possam enriquecer sua iniciativa. A agenda inclui encontros com lideranças de outras forças políticas, como o DEM e o PPS.
“Aos poucos, vamos discutir e apresentar o que pensamos para um Brasil melhor. Por isso, é fundamental visitarmos todas as regiões do país”, ressaltou Aécio Neves.
Para dezembro, o senador tem previsto passagem pelo Nordeste. No dia 8, ele estará em Pernambuco, na companhia do presidente do PSDB, o deputado federal Sérgio Guerra (PE), e, no dia seguinte, na Bahia, quando deve encontrar-se com aliados, incluindo o deputado federal ACM Neto (DEM-BA).

Fonte: PSDB

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Brasil aparece na lanterninha do ranking de crescimento mundial

Não é bom o momento econômico atual. O Brasil aparece em más companhias na lanterninha do ranking de crescimento mundial. Ao mesmo tempo, a inflação dá mostra de que será mais difícil de ser domada do que gostaria o governo. Menos crescimento e mais inflação são um coquetel indigesto para a geração de renda e empregos no país.
O FMI divulgou ontem suas previsões para o comportamento da economia mundial neste e no próximo anos. O Brasil apareceu mal na foto. Seremos o país com o segundo pior desempenho na América Latina, à frente apenas da Venezuela de Hugo Chávez.
A previsão é de que o crescimento do PIB brasileiro fique em 3,8% neste ano e em 3,6% em 2012. Na média, nos sairemos pior do que a região (4,9%), os emergentes (6,4%) e o mundo em geral (4%). Só os países mais desenvolvidos, mergulhados em crise braba, terão desempenho mais sofrível, abaixo de 2%.
Mas a situação pode ser ainda menos favorável. Os prognósticos do FMI são mais otimistas do que a média das previsões feitas pelos analistas locais e expressas no Boletim Focus que o Banco Central edita toda semana. Estes projetam apenas 3,5% de crescimento para 2011.
Uma dos fatores que explicam a discrepância é que o FMI vê com óculos de lentes cor-de-rosa a situação fiscal no Brasil. Os técnicos de lá creem que o compromisso do governo Dilma Rousseff com o equilíbrio das contas públicas é para valer.
Parecem desconhecer que os gastos por aqui não param de crescer; que as previsões para o ano que vem são de mais despesas e mais contratações de funcionários; que o ajuste fiscal é feito na base de maior arrecadação de tributos e não de maior austeridade nos dispêndios.
“A avaliação [do FMI] do controle fiscal no Brasil é uma questão de fé. (…) A aposta do FMI quanto ao recuo da inflação brasileira até o centro da meta, no fim de 2012, até poderá ser sancionada pelos fatos, mas nada, até agora, indica o acerto da manifestação de confiança na austeridade fiscal do governo”, comenta O Estado de S.Paulo em editorial.
A previsão de menor crescimento feita pelos analistas coincide com outra má notícia para o país: a inflação continua subindo. O IPCA-15, que funciona como espécie de prévia do IPCA, dobrou de agosto para setembro, atingindo 0,53%. Foi a maior expansão para esse mês desde 2003.
No acumulado nos últimos 12 meses, a inflação está agora em 7,33%. Já excede com sobras o teto da meta oficial prevista para 2011, que é de 6,5%. O governo vinha dizendo que neste mês os preços já começariam a ceder, mas esta esperança foi transferida para outubro, na melhor das hipóteses.
Os aumentos se disseminam por dois terços dos produtos. Alimentos estão entre os itens que mais subiram de preço em setembro. Os brasileiros estamos pagando mais por açúcar cristal (4,72%) e refinado (4,59%), leite (2,64%), frango (2,51%), carnes (1,79%) e arroz (1,74%). Comida mais cara compromete a renda do trabalhador.
A inflação dos serviços pesa ainda mais no bolso dos cidadãos: encostou nos 9% no acumulado em um ano. Com os aumentos salariais obtidos por categorias profissionais importantes – os metalúrgicos do ABC paulista, por exemplo, acabam de obter reajuste de 10% – a tendência é de demanda maior e, consequentemente, mais repasses para os preços.
O cenário pode ficar mais turvo por causa do dólar, que acumula alta de 12% apenas neste mês. Em seu longo período de baixa, a moeda americana colaborou para conter os preços internos. Agora este aliado está desaparecendo.
Tudo considerado, o país caminha para conviver com uma situação em que a economia cresce menos e a inflação mantém-se alta. A melhor tradução disso é que sobrará menos dinheiro no bolso dos brasileiros, onde a dor é sempre maior.

Fonte: ITV

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jatene confirma jogo entre Brasil e Argentina no Mangueirão

Gov. Simão Jatene
O governador Simão Jatene anunciou, na tarde desta quarta-feira (3), que o Pará receberá o jogo amistoso entre Brasil e Argentina no próximo dia 28 de setembro, como prévia dos jogos da Copa do Mundo de 2014, que acontecerá no Brasil. A partida será no Estádio Olímpico do Pará, o Mangueirão, que vai passar por uma reforma completa, em 30 dias, para estar apto a receber duas das principais seleções de futebol do mundo. O anúncio foi feito durante a vistoria que o governador fez ao estádio, acompanhado de uma equipe de secretários de Estado.
“Este ato da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mostra que, com a articulação certa, o Pará poderia, sim, estar entre as cidades-sede da Copa de 2014. Além disso, fica comprovado que o Estado está pronto para receber grandes eventos esportivos internacionais”, reiterou Simão Jatene. “A confirmação de que este jogo vem para cá enche os paraenses de orgulho, porque, afinal, não é qualquer lugar que recebe esse tipo de clássico do futebol internacional”, acrescentou.
A visita foi acompanhada pelos secretários especiais de Infraestrutura e Logística para o Desenvolvimento Sustentável, Sérgio Leão, e de Promoção Social, Nilson Pinto; e os secretários de Obras Públicas, Joaquim Passarinho; de Esporte e Lazer, Marcos Eiró, e de Comunicação, Ney Messias Jr. Acompanharam ainda o governador o senador Flexa Ribeiro e o presidente da Federação Paraense de Futebol, Antônio Carlos Nunes.
As duas seleções se enfrentarão na Argentina em 14 de setembro. Os detalhes sobre o jogo no Mangueirão – como local de venda e valores de ingressos, e esquema de trânsito – serão divulgados posteriormente.
Articulação – As negociações para trazer o amistoso para o Pará começaram em maio deste ano, com a visita do governador a Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Defensor da inclusão da capital paraense entre as sedes dos eventos preparatórios à Copa de 2014, Simão Jatene acredita que “colocar Belém no eixo dos jogos preparativos é uma tentativa de amenizar o prejuízo do Pará, que não está entre as cidades escolhidas para ser sede do Mundial”.
Para o secretário Marcos Eiró, o amistoso “será uma grande oportunidade de mostrar ao mundo inteiro que a capital paraense tem competência de ser sede de uma partida de futebol de alto nível".
Quem também defendeu a inclusão de Belém entre as cidades preparatórias da Copa foi o senador Flexa Ribeiro, que acompanhou o governador na visita à CBF. “Perdemos a Copa, mas estamos resgatando a importância do futebol para o paraense”, afirmou.
Mundial – Programada para acontecer em 12 cidades brasileiras em 2014, a Copa do Mundo virá ao país pela segunda vez desde a sua criação, em 1930. Na Região Norte, apenas Manaus, capital do Amazonas, está entre as cidades escolhidas para sediar jogos da competição. Belém recebeu a Seleção Brasileira pela última vez em outubro de 2005, nas eliminatórias da Copa de 2006. O jogo Brasil e Venezuela teve gols de Adriano, Ronaldo e Roberto, com placar de 3 a 0.
Além de ser um evento que congrega milhares de torcedores, movidos por uma verdadeira paixão nacional, a Copa do Mundo também impulsiona os governos a vencer o desafio de recebê-la, pois entre os rigorosos critérios da Federação Internacional de Futebol (Fifa) estão melhorias nas cidades nas áreas de saneamento, transporte, saúde, segurança, educação e cultura, entre outros segmentos.
Sediar uma Copa do Mundo também representa para o país a oportunidade de ampliar sua capacidade estrutural, econômica e de modernização, tendo em vista o aumento de sua capacidade de captação dos investimentos, que ficarão como benefício direto para a população após o término da competição.
Luiz Carlos Santos e Dani Franco - Secom

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Artigo de Aécio Neves: Itinerário da transformação

Senador Aécio Neves
Neste meu tempo de vida pública -quase três décadas-, tive o privilégio de viver experiências marcantes, algumas definitivas, que adensaram minhas crenças na ação política. Desde as Diretas-Já e Tancredo, a Constituinte de 1988, o exercício da liderança partidária no Congresso, as grandes reformas empreendidas nos anos 1990, depois a presidência da Câmara e por duas vezes no governo de Minas, compreendi que não há outro caminho para avançar que não passe por ela, a política.  O contrário também é verdade: quando amesquinhada e violentada, ela pode se transformar no espaço da intransigência e, por consequência, do impedimento às mudanças necessárias.  Avançamos sempre quando a boa política preponderou, guiada pelas causas nacionais de cada tempo. Os saltos que demos, em cada fragmento da história, foram resultantes das dinâmicas capazes de construir convergências -ainda que tênues- e soluções, ainda que só as possíveis. 

Hoje, há claros sinais de que uma silenciosa transformação está em curso na direção de uma nova convergência, cujo centro é um inédito protagonismo do cidadão. Inédito porque, desta vez, não há uma grande bandeira a ser hasteada pelas multidões, como as que encheram as praças nas Diretas-Já. Se não há mais protestos reunindo milhares, eles se movem pelo dia a dia animados por questionamentos e fortalecidos por convicções e indignações depositadas à porta dos poderes públicos.  Cada vez menos brasileiros estão dispostos a aceitar os pequenos e os grandes pecados sublimados pelas burocracias governistas.
Igualmente, é muito menor na vida cotidiana a resignação quanto às nossas eternas contradições, que perpassam diferentes gerações e governos. A lista é infindável e energiza uma nova consciência brasileira.  A impressionante troca de opiniões e ideias nas redes sociais dá a dimensão da enorme vontade de participação popular nas decisões antes exclusivas à corte. É uma mobilização natural, a favor do Brasil, que vem sendo construída fora da ortodoxia dos ritos partidários e da política formal, e que reflete o imutável desejo coletivo de, finalmente, conquistarmos um projeto de país mais solidário.

É essa força, aparentemente desorganizada, que assume, aos olhos da sociedade, a legitimidade perdida pelos sindicatos e movimentos sociais que, aparelhados, deixaram de ser os instrumentos catalisadores das mudanças. Vivemos um novo tempo em que o cidadão é cada vez mais protagonista da cena política, e não só destinatário dos discursos políticos. Esse parece ser o caminho definitivo da nossa verdadeira transformação como sociedade e como indivíduos. Tomara!

sábado, 11 de junho de 2011

Artigo de José Serra: A miséria do “Brasil sem Miséria”

Publicado em O Globo em 10/6/2011

José Serra
Algumas pessoas não se desfazem da roupa que saiu de moda; guardam-na até que um dia ela entre na moda de novo. Parece que algo assim aconteceu com o programa Fome Zero. Ele foi lançado com grande foguetório no começo do governo Lula, como se fosse a salvação da população pobre do Brasil e até do mundo. Mas não emplacou, sem que ninguém fosse informado por quê.  Oito anos depois, eis que ressurge do esquecimento com um novo nome, “Brasil sem Miséria”, num relançamento que também deveria ter sido retumbante. Mas não foi, ou porque o tema já não está tão na moda ou porque o “programa” é só um improviso — ou as duas coisas. Foi tirado da cartola para desviar a atenção da crise que envolvia o então ministro Antonio Palocci.
Nada contra, tudo a favor, o reuso e reciclagem de resíduos sólidos. Mas, em se tratando de políticas públicas, a boa prática está em avaliar e ajustar programas. Com o Fome Zero, não houve nem uma coisa nem outra porque, acima de tudo,  faltou execução. Ficou só no nome, que fez sucesso no Brasil e, principalmente, no exterior. É o programa que foi aplaudido sem nunca ter existido. Suas múltiplas ações e metas, divididas em quatro eixos — acesso a alimentos; fortalecimento da agricultura familiar; geração de renda e articulação, mobilização e controle social — pouco saíram do papel. Agora, no “Brasil sem Miséria”, aqueles quatro eixos viraram três, com outros nomes: renda, inclusão produtiva e serviços públicos. As ações e metas, no entanto, são semelhantes.
Vejamos o caso das famosas cisternas. Do 1 milhão prometido pelo Fome Zero, foram construídas 350 mil em oito anos – pouco mais de um terço.  O “Brasil sem Miséria” promete construir as 750 mil que ficaram faltando da promessa de 2003! Diga-se de passagem, essas cisternas são, além de virtuais, itinerantes: também já fizeram parte das metas do PAC.
Onde não reusa promessas esquecidas, o novo programa, à moda do PAC, recicla com nova embalagem de marketing ações em andamento. Muitas delas não foram nem sequer iniciadas no governo do PT. É o caso do programa de apoio à agricultura familiar (Pronaf), do programa de microcrédito com assistência técnica (Proger) e do próprio Bolsa Família, que foi a unificação dos programas de transferência de renda criados pelo governo Fernando Henrique Cardoso.
A propósito: seria importante que o “novo” programa de combate à miséria dissesse algo sobre o fato de as  condicionalidades previstas na lei de 2004, que criou o  Bolsa Família,  não terem sido levadas à sério. Alguém sabe, como requer a lei,  se a freqüência dos alunos à escola está sendo verificada, se as futuras mães estão fazendo acompanhamento pré-natal e se as crianças estão sendo vacinadas? Estão sendo cumpridos o monitoramento, a avaliação e a articulação do Bolsa Família com as demais políticas sociais do governo federal, como cursos de formação profissional? Essas são exigências legais inegociáveis.
Cabe registrar, para ser justo, duas novas medidas anunciadas agora, supondo que saiam do papel: a concessão da Bolsa Verde e o aumento do número de filhos com direito ao benefício do Bolsa-Família, cujo limite passa de 3 para 5. O governo federal  fica devendo, porém, dentre muitas promessas de campanha, a coisa mais importante: o atendimento a todas as famílias com renda per capita inferior a 25% do salário mínimo, o que corresponde ao dobro do valor estabelecido pelo Brasil sem Miséria. Afinal, depois de oito anos do governo Lula, há mais de 16 milhões de brasileiros que vivem em situação de miséria extrema.
No cômputo final, descontado o oba-oba publicitário de praxe, convenhamos:  o novo programa,  que não é novo,  é pouco para reanimar um começo de governo cuja principal marca é a hesitação. Ou, se quiserem, é não saber o que quer nem para onde vai.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Artigo de José Serra: A educação e a droga

José Serra
Franca é uma cidade industrial do interior de São Paulo, relativamente próspera e bem administrada pela prefeitura, como pude comprovar ao longo dos últimos anos. Pois bem, um levantamento simples do Conselho Tutelar de lá mostra a complexidade do problema da droga no Brasil: 40% dos estudantes que largam a escola estão envolvidos com o uso de drogas! Como apontou nesta semana o jornal AGORA, esses jovens têm de 12 a 16 anos, são alunos do ensino fundamental, quase todos usuários do crack. Segundo a presidente do Conselho, “o crack tira o adolescente da escola por semanas e, às vezes, não o deixa voltar”.
O combate à droga prometido pelo governo Lula nunca passou dos anúncios eleitorais. Na prática, pouco ou nada saiu do papel e da publicidade. Qualquer programa sério de enfrentamento da questão deveria envolver pelo menos quatro tipos de ações: repressão ao contrabando  da cocaína, guerra ao tráfico, educação da população e recuperação dos dependentes químicos.
Quero chamar a atenção aqui para a educação. O Brasil faz muito pouco ou nada para educar as pessoas, incluindo nossa juventude, sobre o males da droga. Há experiências interessantes aqui ou acolá, mas sem grande abrangência.
Quando ministro da Saúde, envolvi-me ativamente na educação a respeito dos males do cigarro. Proibimos a publicidade enganosa, fizemos campanhas de TV (numa delas mostrando que o caubói do Marlboro morreu de doença do pulmão causada pelo tabaco) e introduzimos, nos maços de cigarro, fotos sobre as doenças provocadas pelo tabagismo. Ou seja, concentramo-nos na mitigação do desejo das pessoas de começarem a fumar ou continuar fumando. Posteriormente, no governo de São Paulo, proibimos o fumo nos lugares públicos fechados (incluindo bares, restaurantes, lojas, etc.), iniciativa  que se generalizou no país. Tudo isso funcionou: há evidências de que o consumo de cigarros no Brasil pelo menos foi desacelerado, e que se desenvolveu uma cultura antitabagista na sociedade.
Já passou da hora. É preciso  fazer uma grande ofensiva educacional de combate às drogas que transformam nossos jovens em dependentes químicos: cooperação com ONGs voltadas a esse objetivo;  campanha nas escolas, filmes, cartilhas, esclarecimentos nos jornais, revistas, internet, matérias de rádio e televisão, anúncios como matéria paga, sim, do governo. Campanha intensa e prolongada, inteligente e, acima de tudo, convicta, não envergonhada.

domingo, 15 de maio de 2011

Desenvolvimento adiado

José Serra
 Nas últimas décadas o Brasil parece ter congelado sua vocação para o desenvolvimento rápido, a indústria e a agregação de conhecimento e valor. Pior ainda, contrariando toda a retórica oficial, desestimula-se a necessidade desse desenvolvimento, como se um país com nossa população e nossas desigualdades sociais pudesse encontrar seu rumo abrindo mão do dinamismo e da oferta de boas oportunidades a todos, especialmente aos mais jovens.
Uma das piores heranças do governo Lula não foi apenas a inflação em alta, mas o fato de a megavalorização da taxa de câmbio do real em relação às moedas estrangeiras passar a ser a âncora anti-inflacionária exclusiva. Com isso se castiga cruelmente o setor produtivo da nossa economia, diminuindo a competitividade das exportações brasileiras, principalmente de manufaturados, e aumentando a competitividade das importações que concorrem com a produção industrial doméstica.
Os números não mentem. Entre 1900 e 1950, o PIB brasileiro aumentou, em termos reais, quase dez vezes; entre 1950 e 1980, oito vezes! Mas, entre 1980 e 2010, mal chegamos a dobrá-lo. Depois do grande esforço de estabilização monetária e de redução das incertezas, graças à implantação e consolidação do Plano Real, poderíamos ter crescido mais e melhor, de forma sustentada.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Verdades e Mentiras sobre FHC

Xico Graziano
O Globo, 05/05/11
Uma maledicência persegue as ideias de Fernando Henrique Cardoso. Ele discursa e lhe enviesam a fala; escreve, e lhe envenenam a palavra. Basta ver a recente confusão sobre seu artigo, onde defende que a oposição se aproxime da classe média. Disseram que FHC mandou desistir do “povão”. Uma maldade política.
Não é a primeira vez que deturpam o pensamento de FHC. Até dos gestos já lhe roubaram veracidade. Na campanha presidencial de 1994, o então candidato montou um animal que passava arreado em Belmiro Gouveia, sertão de Alagoas. Deu na imprensa: “FHC anda de jegue.” Não era jegue, mas um cavalo baio. Puro preconceito.
Sua mais famosa frase jamais foi pronunciada. “Esqueçam o que escrevi” foi a tradução maldosa do jornalista que o escutou responder, indagado, que nem tudo aquilo que redigira na época cepalina, anos 1960, ainda valia nos tempos globalizados da economia mundial. A declaração — uma obviedade intelectual — ocorreu em reunião com empresários no restaurante Rubayat, aquele existente na Alameda Santos, capital paulista. Eu estava lá.
Tem mais. Já na Presidência da República, FHC sofreu quando, querendo impulsionar a reforma da Previdência, criticou as altíssimas aposentadorias de certos funcionários públicos, taxando-os de “alguns vagabundos”. Na interpretação maliciosa, estourou a manchete: “Presidente diz que aposentado é vagabundo”. Sacanagem da boa.
Agora, ao se referir à classe média, FHC chamou a atenção sobre o importante fenômeno da ascensão social. Impulsionada pelo Estado e permitida pelas modernas tecnologias, a começar da comunicação aberta pela internet, a economia abre fantásticas oportunidades. Na cidade e no campo, milhões de famílias progridem a olhos vistos.
A política tradicional, incluindo o sindicalismo, não consegue atender às expectativas dessa gente progressista. O velho esquema consegue, a seu jeito, se aproximar das massas operárias, enquanto o populismo cuida de manipular os miseráveis. Mas a juventude, da idade e das ideias, mora longe daí.
Alguém disse que FHC defende uma guinada à direita do PSDB. Conclusão esdrúxula. Considerar o povo na “esquerda” enquadrando as novas classes médias na “direita” significa inverter o rumo da história moderna. Quem pensa assim está fossilizado pelos antigos axiomas ideológicos. Zero de século XXI.
Prestes a completar 80 anos, FHC mostra uma lucidez de raciocínio que espanta seus interlocutores. Nenhuma liderança política do país olha à frente como ele. Ajuda-o, com certeza, sua formação intelectual misturada pelas cores da política. O brilho do ex-presidente parece despertar inveja, ou ciúmes, de seus oponentes mais tacanhos.
Certos petistas aproveitaram a brecha dessa discussão para estocar que FHC nunca esteve próximo do povo. Coisa ridícula. Antes de muitos deles nascerem o sociólogo FHC já andava pelas favelas de Porto Alegre e São Paulo pesquisando a segregação racial. E o presidente FHC não teria vencido duas vezes o Lula, no primeiro turno, sem o apoio decisivo das massas.
Foi exatamente graças ao programa de estabilização da economia, conduzido por FHC, que o “povão” começou a ter seu ganho elevado, em termos reais. Com o resgate da sua moeda — e prestações fixas a pagar —, os eletrodomésticos e demais bens de consumo chegaram aos lares dos brasileiros pobres.
Há políticos que mentem deliberadamente. Os mentirosos compulsórios sempre apresentam algum trauma psicológico. Não sou especialista nesse ramo. Mas acho que os petistas se envergonham da época que denunciavam o Plano Real como uma impostura.
Depois, quando o adotaram, dele se beneficiando, sonham que mudaram o Brasil. Mas acordam à noite com pesadelos. Sabem que o autor da façanha se chama FHC.

Xico Graziano no Twitter: @xicograziano

quarta-feira, 23 de março de 2011

Dilma em dois meses

"emPACado"
Nem precisou muito tempo, e o Brasil já vê a cara da gestão da presidente Dilma Roussef. Dois meses se passaram e atitudes estão sendo tomadas como se somente existisse o presente. Esqueceu-se o passado, nega-se o futuro.
Não há como calcular os resultados trágicos que estão por vir, mesmo porque há muitas cartas na manga do pessoal do Partido dos Trabalhadores (PT), mas o brasileiro já pode esperar algo não tão positivo como, por exemplo, um aumento de R$ 5 no Salário Mínimo, 0,39%, atitude retrocesso na história.
Ainda assim, o pior não é o “aumento”, a presidente também almeja tirar do Congresso a possibilidade de debate e consulta dos reajustes anuais do salário até 2015, possibilitando o executivo a reajustar o mesmo por decreto, uma usurpação das atividades do Legislativo.
Não vou aqui ser repetitivo e mencionar todas as questões pregadas pelo PT durante anos e que estão sendo esquecidas pelos seus militantes. Existem valores em cada partido, de situação ou oposição, cabe a cada um trabalhar para que a prática vá além da teoria, mas no caso do Partido dos Trabalhadores a prática passa bem longe das promessas.
Pensemos: será mesmo que o Partido dos Trabalhadores é dos trabalhadores?
E esse ‘É’ é posto na condição ser, defender, proteger, auxiliar e valorizar os trabalhadores.
Pensemos novamente: o Partido dos Trabalhadores é dos trabalhadores?
Vamos nos valer de outros fatores para refletir melhor essa questão como, por exemplo, o fato incomum para um País em pleno crescimento de cortar R$ 50 bilhões dos investimentos.
É clara a nossa oposição. O corte prejudicará importantes setores econômicos e só ocorreu porque o governo Federal prefere sacrificar áreas básicas ao invés de reduzir gastos supérfluos. Um absurdo!
Por outro lado, despesas com viagens – passagens e diárias – que seriam o primeiro alvo do ajuste fiscal anunciado pela equipe econômica de Dilma, tiveram um aumento nítido de 32% em janeiro e fevereiro de 2011 em relação ao mesmo período do ano passado. Foram gastos demasiadamente R$ 80 milhões pagos pelo Tesouro Nacional.
Para mascarar tantas notícias ruins escancaradas pela imprensa, houve um aumento no Bolsa Família. Pronto! Doravante, muitos não verão além do auxílio. Infelizmente.
Contraditório ou não, todos os brasileiros sofrerão com isso. Não fica difícil agora responder à pergunta acima.
No entanto, além de elaborar melhores propostas como foi o caso do Salário Mínimo de R$ 600, a Oposição serve para fiscalizar as atitudes tomadas, cumprindo à risca a democracia.
A Oposição, como o nome já diz, se opõe. Não contra o Brasil. Mas, sim, contra o governo quando manda e desmanda sem calcular resultados e estabelecer prioridades para um País melhor, digno e sensato.
Sendo assim, a Oposição contestará toda ação que ferir a dignidade e a cidadania dos brasileiros.

Vanderlei Macris
Deputado federal pelo PSDB-SP e vice-líder do partido.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Entrevista de FHC: “EUA não têm mais como impor nada para o mundo”

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
PARA EX-PRESIDENTE BRASILEIRO, OBAMA CHEGA AO BRASIL EM UM MOMENTO QUE “NÃO DÁ MAIS PARA PENSAR EM TERMOS NORTE-SUL”
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 79, diz que o presidente Barack Obama chega hoje ao Brasil num novo momento mundial, em que “os EUA vão parar de gritar, vão ter de sussurrar”.
Em entrevista à Folha, acrescentou que os EUA precisam mudar com o mundo: “Não dá para ser mais aquele isolacionismo imperial, do “eu quero” e acontece”.
Na opinião dele, o abalo nas relações Brasil-EUA na era Lula foi por causa do Irã, mas a presidente Dilma Rousseff não está promovendo guinada, “só ajustes”.
Dilma convidou FHC e todos os outros ex-presidentes para participar de um almoço oferecido a Obama hoje em Brasília.
Folha – O que esperar da vinda de Obama?
Fernando Henrique Cardoso – É um sinal importante que ele venha e que venha agora, num momento em que não dá mais para pensar mais o mundo em termos de Norte e Sul. O Brasil olhou os EUA a vida inteira com o complexo de eles serem Norte e nós, Sul. Apesar da retórica, o fato de discriminar os EUA indicava inferioridade. Não precisamos mais disso.
Por que o abalo nas relações Brasil-EUA?
Sobretudo por causa do Irã. Você se meter no Irã sem ter cartas para jogar era e é arriscado. O que você ganha com isso? E com direitos humanos não dá para brincar. O Lula era visto como homem que vinha da esquerda e fazia uma política sensata. Aí, todo mundo se perguntou: “Ele teve recaída insensata?”
E com a Dilma?
Com os poucos sinais que a Dilma deu, as coisas já começam a se desanuviar.
A decisão do Obama de não vir ao Brasil no governo Lula foi um sinal de insatisfação?
Acho que sim. Nem diria de insatisfação, mas de reserva, de cuidado, por causa do Irã. O governo Lula não foi um governo antiamericano. Você pode falar que foi leniente na questão de direitos humanos, mas os americanos também são. Quando é do interesse deles, eles não se preocupam tanto assim com direitos humanos.
O que gerou a cambalhota da balança comercial? De um superavit de quase US$ 10 bilhões com os EUA em 2006 o Brasil passou a um deficit de quase US$ 8 bilhões em 2010.
Nós deixamos de exportar para os EUA, o que é uma coisa grave. Eles são o maior mercado do mundo. Como houve essa supervalorização do Sul… Não que eu ache errada em si, o que está errado é que foi em detrimento do Norte. Não sou contra a relação com o Sul, não. Sou contra é a ideologia Sul-Sul.
No discurso oficial, a cambalhota foi resultado do câmbio baixo. E o viés ideológico?
No mínimo, é um conjunto. E uma boa questão é o que o governo Dilma vai fazer para desvalorizar o real. Neste momento, é impossível. A saída é atacar o custo-Brasil, o custo-transporte, o custo do imposto, a falta de uma reforma tributária, para não falar na trabalhista.
Qual sua opinião sobre a possibilidade de os EUA fazerem compra antecipada do pré-sal, como a China já fez antes, na base do financiamento?
Tem que ir com jeito com os EUA e com a China, porque você está vendendo o futuro e não houve uma discussão profunda sobre o pré-sal.
E a política externa, o sr. está sentindo uma guinada?
Guinada é forte, pode ser ajuste. A Dilma já enviou sinais de ajustes, já avisou: “Eu não posso… pra mim, direitos humanos é universal”.
Como o Brasil deve se colocar na polaridade EUA-China?
Há interesse do Brasil e dos EUA em se aliar. Os EUA, sozinhos, já não têm mais como impor nada ao mundo, mas é preciso o Brasil entender que os nossos interesses não se alinham numa só direção. Vamos ver que sinal o Obama vai emitir. Se for de que, em certas matérias, vamos jogar juntos, nós não devemos achar que estamos nos subordinando aos EUA.
Em que matérias?
Em meio ambiente, eventualmente na questão nuclear, na Rodada Doha. Vamos forçar a China a entrar num jogo mais puro para todos nós. E mantém-se a política tradicional nossa, de defesa da democracia e dos direitos humanos, sem incensar ditadores na expectativa de que votem em nós para o Conselho de Segurança.
O sr. apostaria que Obama vai repetir aqui o que fez na Índia e apoiar o Brasil para o Conselho? Se não, a viagem vai ficar carimbada como fiasco?
Fiasco eu não diria, mas frusta. E frusta o governo, porque o país nem nota, nem sabe. Acho muito mais vantajoso ter uma ação mais efetiva no G-20, no FMI, no Banco Mundial do que no CS.
Como o sr. imagina os EUA daqui a 20, 30 anos?
O polo mundial se deslocou para os EUA depois que eles ganharam a guerra, porque tiveram capacidade de inventar novas tecnologias e formas de produção. E, agora, a internet, toda essa onda de nova mídia, foi feita lá. A competição estratégica vai ser entre quem vai ter mais capacidade de inovar.
Efeitos da crise?
Eles vão ter de entender que a governança global não se dá mais num diretório fechado. Não dá mais para ser aquele isolacionismo imperial do “eu quero” e acontece.
E o Obama?
Ele entrou num mau momento, pegou uma crise gigante, teve dificuldade imensa em fazer o avanço social e algum ele fez. Se as coisas continuarem assim, pode se reeleger, porque não tem nome forte no outro lado.
E a política externa?
O Obama fez aquele discurso no Egito com uma proposta de conciliação. E daí? Assim como foram surpreendidos pelo fim da URSS, também foram agora com as revoltas no mundo árabe. E ficam atônitos, porque têm essa contradição de apoiar o errado. O chinês só grita quando pisam no calo dele, nós gritamos sem ter calo, e os EUA gritam sempre com e sem calo… Mas vão parar de gritar, vão ter de sussurrar.

Fonte: Folha de São Paulo ( 19/03/2011 )